Comentário político: Como vovó já dizia

por Pitfall*

“Pesquisa da organização não governamental Contas Abertas apontou que o Brasil gastou 10 vezes mais com reparos causados por desastres naturais do que com a prevenção. No ano passado, o governo federal teve custos de R$ 1,3 bilhão com o programa Resposta aos Desastres e Reconstrução e apenas R$ 138 milhões com o de Prevenção e Preparação para Desastres.”

Este é um trecho da matéria Brasil prefere remediar a prevenir desastres naturais, aponta pesquisa, veiculada hoje pela Agência Estado no portal Uai.com.br. Apesar de abordar a forma como os governos vem tratando os danos causados por desastres naturais, ela aponta também um dos maiores vícios existentes na política brasileira, o de tomar atitudes que mais remediam do que previnem. Não é raro serem apresentados projetos com soluções paliativas em lugar de trabalhos que realmente tragam uma “cura” para os problemas existentes no país.

Talvez o principal motivo para que isso aconteça seja mesmo a recompensa imediata que tais manobras implicam. Programas como o Bolsa Família, Prouni e Fies (estes são os mais populares, mas existem vários outros também nos âmbitos municipais e estaduais), geram votos no curto prazo, uma vez que sanam ou aliviam algumas dificuldades da população mais carente. Porém, a maioria dos projetos desse tipo, são atos sem grande poder de reverter a situação para uma mudança definitiva de cenário.

É preciso reconhecer que alguns programas são mesmo importantes e até necessários, já que não precisamos conviver com goteiras se no momento não há como refazer o telhado.

A cobrança por respostas urgentes, que muitas vezes vem do desespero de classes que há anos, ou talvez décadas, convivem com os mesmos problemas, de certa forma, também contribuem para tal atitude dos governos, que respondem com medidas “rápidas”, para mostrar atitude, e populares, para evitar uma insatisfação por parte dos eleitores.

Pois é, Raul. Os óculos escuros ainda prevalecem
Pois é, Raul. Os óculos escuros ainda prevalecem...

Outro motivo nem sempre comentado é o despreparo de alguns políticos para tratar dos assuntos inerentes ao cargo, além dos que se elegem para defender interesses pessoais e de minorias, ignorando o seu papel representativo. A falta de conhecimentos daquele que é escolhido pelo povo é fator crucial para que projetos “tapa-buraco” sejam criados e aprovados nas casas legislativas do país. São políticos com poder de voto e de palavra, mas sem a capacidade de análise e decisão necessária para discutir os projetos apresentados na mesa.

Não temos como contestar que o Brasil possui imensas demandas, muitas delas ligadas a questão social, e vem caminhando lentamente, até mesmo com o próprio desenvolvimento da população. As mudanças na forma de pensar política e valorizar o tratamento de problemas pela causa, não pelas consequências, ocorrerão, assim como os brasileiros passarão a entender que devem se cuidar antes de ficar doentes. A tendência é que, no longo prazo, as medidas remediadoras não desapareçam, mas percam sim espaço significativo para as de prevenção. Quem sabe já neste ano eleitoral elas estarão mais em pauta nas discussões políticas?

* Pitfall é colunista e autor de crônicas sobre humor e política

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